Brincar de faz de conta?! Por quê?! – Natália Chagas

Uma das estratégias utilizadas no trabalho para desenvolvimento da linguagem em crianças com Tea é a brincadeira de “faz de conta”. Mas a maioria das pessoas não sabe para que serve essa brincadeira e qual sua importância no desenvolvimento. Hora de descobrir!!

Por meio da brincadeira de “faz de conta” trabalhamos o desenvolvimento de uma habilidade extremamente importante: o simbolismo. Simbolizar diz respeito à capacidade de representar e envolve além da linguagem e da brincadeira simbólica, as imagens mentais, a imitação e a resolução de problemas por combinações mentais de ações (Zorzi, 1991). Mas, como se desenvolve a função simbólica?

Segundo Piaget, inicialmente o brincar se desenvolve por meio de ações sensório motoras, ou seja, ações que a criança consegue realizar, como empilhar, jogar, entre outros. Essas ações passam a ser repetidas constantemente, como se as exercitasse. Primeiramente essas ações são consideradas um desafio para a inteligência da criança e podem assumir um caráter lúdico, à medida que são realizadas sem que haja um desafio a ser resolvido, mas simplesmente pelo prazer em realizá-las. Dessa forma, a criança passa a brincar com suas ações até que, no decorrer do segundo ano de vida observa-se o início da reprodução de ações rotineiras fora da situação usual que ocorrem, ou seja, a criança começa a fingir que toma banho, que come, entre outros. Tanto na reprodução de ações sensório motoras, como das ações rotineiras, a criança extrapola o contexto em que as coisas originalmente se desenvolvem. No entanto, o exercício motor nada tem de simbólico, enquanto a reprodução de ações rotineiras leva a criança a agir de forma representativa.

É possível observar que o brincar surge de maneira gradual e tem sua gênese ligada ao desenvolvimento sensório motor. Em estudos, Zorzi observou que o simbolismo se incorpora à atividade lúdica já existente através do surgimento de ações dentro das ações sensório motoras, que apesar de não serem puramente lúdicas, não se limitam às características das ações sensório motoras. Essas condutas são consideradas transição na evolução da brincadeira e constituem o período pré-simbólico. As condutas pré-simbólicas acontecem de maneira interligada e são observadas a partir do segundo ano de vida, embora haja variações de indivíduo para indivíduo. São elas:

  • Uso convencional do objeto: A criança tende a aplicar aos objetos não mais qualquer ação, mas aquelas ligadas ao uso apropriado dos mesmos. Nota-se tentativas de imitar o que o outro faz com os objetos. Ex: mexer uma colher dentro de uma xícara.
  • Esquemas simbólicos: é a reprodução fictícia das ações rotineiras de sua vida. A criança passa a recorrer a miniaturas ou objetos reais para fingir que come, que se prepara para dormir, etc.
  • Aplicação das ações em outros: a criança começa a aplicar as ações em outros personagens, como sua mãe ou um boneco. O simbolismo deixa de ser centrado apenas na criança e passa a ser centrado no outro, tal característica enriquece as interações entre criança e adulto oferecendo maiores possibilidades para o desenvolvimento da linguagem.

Após essa etapa são observadas as condutas simbólicas.

  • Sistematização da aplicação de ações em outros: a generalização de ações em outros personagens passa a ser mais diversificada e sistematizada. A criança atribui aos outros uma capacidade de agir análoga às que ela mesmo possui. Dessa forma a criança não apenas generaliza suas próprias ações, mas transpõe também seus sentimentos e desejos, como se eles partissem do brinquedo.
  • Sequencialização de ações simbólicas: Começa a ocorrer certa coordenação entre as ações na brincadeira de faz-de-conta. Aspectos do dia a dia até então representados isoladamente passam a se combinar em sequências complexas e cada vez mais próximas das ações reais. Assim, o brincar se enriquece com o início do planejamento das condutas.
  • Uso de símbolos: o simbolismo só se completa quando atinge o nível da representação independente, ou seja, a brincadeira simbólica torna-se verdadeiramente representativa quando a criança começa a usar substitutos simbólicos que podem corresponder a objetos, gestos e palavras. Ex: na ausência de uma miniatura de cama a criança utiliza um pedaço de madeira como substituto; ao dar banho em uma boneca sem a presença de um chuveiro a criança finge abrir uma torneira e imita o som da água caindo.

Considerando que a partir desse momento a criança não se prende somente aquilo que está visível, é notória a capacidade para evocar e criar situações, demonstrando a evolução da linguagem em decorrência do desenvolvimento da função simbólica. Nota-se que linguagem e brinquedo se desenvolvem ao mesmo tempo e se influenciam mutuamente. A brincadeira abre espaço para a linguagem fluir, como que solicitando os recursos representativos. A linguagem, por outro lado, reforça o simbolismo do brinquedo na medida em que o sustenta e dirige.

Conclui-se que o desenvolvimento da linguagem está intimamente relacionado à capacidade da criança desenvolver jogos simbólicos durante a infância. Por isso, é de fundamental importância a utilização da brincadeira de faz-de-conta com qualquer criança, inclusive aquelas que possuem Transtornos do espectro autista, visto que a função simbólica está comumente prejudicada nessa população.

Referências bibliográficas:

  • Zorzi, J. (1991). A evolução do simbolismo como base para a compreensão e diagnóstico do retardo de linguagem.
  • Borges, D; Sodré, M.; Chiappetta, A. Avaliação da maturidade simbólica em crianças de 2 e 3 anos em creches municipais da cidade de Bariri – SP.

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